Nesta terça-feira, 18/6, um grupo de manifestantes incendiaram o carro de transmissão da TV Record, que fazia a cobertura do protesto.De acordo com a repórter Fabiana Panachão, o grupo que ateou fogo ao veículo apedrejou a equipe antes do ato. “Eles chegaram com os rostos cobertos e disseram que não éramos bem-vindos, que deveríamos tirar o carro do link. Mas não deu tempo. Eles apedrejaram nossa equipe, nós tivemos que correr e eles atearam fogo no carro”, contou a jornalista, ao vivo, durante o programa “Cidade Alerta”.  Nenhum dos funcionários da emissora que estavam no carro se feriram.
A emissora emitiu comunicado, no qual afirma ter certeza ter sido atacada por "uma minoria de vândalos".
"A Rede Record de Televisão vem a público informar que todos os profissionais que trabalhavam na transmissão ao vivo das manifestações em São Paulo escaparam ilesos do incêndio no caminhão usado para a captação de imagens. O protesto na porta da Prefeitura de São Paulo que teve momentos de tensão com a tentativa de invasão do prédio já estava esvaziado.A grande maioria dos manifestantes já tinha deixado o local em passeata. Por isso, a Record tem a certeza de que foi atacada por uma minoria de vândalos. Antes que o carro saísse, um grupo atacou o veículo com pedras e depois colocou fogo nos equipamentos. A Record reafirma o seu compromisso de transmitir com fidelidade o protesto pacífico de milhares de pessoas nas ruas brasileiras e lamenta apenas que pequenos grupos tentem impor as suas ideias pela violência."
A manifestação desta terça é a sexta organizada pelo MPL, em protesto ao aumento das passagens dos ônibus e trens na cidade de R$ 3,00 para R$ 3,20. Na última segunda, de acordo com a Policia Militar, cerca de 65 mil pessoas foram às ruas de São Paulo (SP).

Com informações do Portal Imprensa

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O repórter fotográfico Sérgio Andrade da Silva (31) tem a maior parte dos seus anos de experiência dedicada à cobertura de manifestações e conflitos urbanos. Já presenciou desapropriações em São Paulo e suas lentes já registraram a ação da polícia na Cracolândia, centro da capital paulistana.

Sempre que foi à rua Silva tinha consciência do risco que corria. Apesar da experiência, nunca presenciou nível de violência tão alto como o da manifestação que aconteceu na semana passada, dia 13 de junho, organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL).

O fotógrafo, que fazia um trabalho freelancer para a agência Futura Press, virou vítima da polícia enquanto trabalhava. Passou por cirurgia na sexta e no último sábado recebeu alta. 

Em casa, Silva se mostra animado, porém, com o ônus de não poder voltar a enxergar do olho esquerdo, o que segundo ele, não vai impedir de continuar com seu trabalho. “Não vou desistir daquilo que amo fazer”, diz.

Pai de duas filhas, sua foto com os olhos sangrando – e a de outros colegas, como a repórter da Folha, Giuliana Vallone - virou símbolo da violência sofrida por profissionais de imprensa na última semana, ato que não pode ser considerado pontual, tendo em vista o histórico de violência contra jornalistas que vivem no Brasil.

Em sua casa, na região oeste de São Paulo, Silva recebeu IMPRENSA para dar seu depoimento. Apesar do momento difícil, ele afirma que vai aproveitar a ocasião para conscientizar as pessoas da importância do trabalho da imprensa. “Os profissionais estão ali para trabalhar e levar informação, não estão para condenar e nem acusar. O governo e a sociedade precisam entender isso”.

IMPRENSA - Você já vinha acompanhando as outras três manifestações que aconteceram antes da semana passada?

Sérgio Andrade da Silva - Eu não fui aos primeiros protestos, mas venho acompanhado o trabalho do Movimento Passe Livre e de outras entidades desde 2011. Eu sempre fiz cobertura de protestos. Desde a gestão Kassab, quando aconteceram várias desocupações de imóveis no centro da cidade. Eu sempre tive interesse pessoal por cobrir manifestações. Mas essa foi a primeira em que presenciei violência tão extrema dos policiais contra os manifestantes e, contra a imprensa, que foi o meu caso.

Então, você nunca presenciou um tipo de violência como essa?

Nunca chegou a esse ponto. Inclusive, em vários atos, eu mesmo já encontrei policiais que acabavam nos conhecendo de nos acompanhar outras vezes. Eles até cumprimentavam os jornalistas. Você sabe que a polícia está lá para garantir o direito do cidadão de protestar e acompanhar a manifestação, mas sem repressão. Mas, nessa do dia 13, tinha algo diferente. A polícia não estava lá simplesmente para defender o direito de ir e vir. Estavam lá para reprimir e combater os manifestantes e o direito de protestar. Isso era visível. Estava explicito.

Qual o trajeto que você acompanhou?

Eu cheguei exatamente na concentração. Mas o ato já estava se dispersando pelas ruas do centro em caminho à Avenida Ipiranga. Comecei a seguir o grupo registrando as faixas, o grito das pessoas e fui seguindo até subir a Rua da Consolação, em direção à Avenida Paulista.

Você estava com outros profissionais de imprensa ou sozinho?

Eu fui sozinho, mas encontrei diversos colegas de outros veículos. Conversamos e era perceptível no semblante deles que estava um clima perigoso. Todos desejavam boa sorte uns aos outros e pediam para tomarmos cuidado, tudo isso foi antes de o conflito ocorrer.

Quando você decidiu acompanhar aquela mobilização?

Foi na véspera. Foi algo pensado, eu tinha ciência do tamanho da manifestação e dos riscos que poderiam ocorrer.  Fiquei concentrado pensando nesse trabalho.

O que você estava registrando até então?

Até o início da Rua da Consolação seguia pacífica. As pessoas iam com as faixas levantadas e aos gritos. Meu foco, até aí, era registrar as pessoas com as mensagens. Quando chegamos à Praça Roosevelt, o clima começou a mudar. A polícia fechou a Rua da Consolação e a Guarda Civil Municipal fechou a praça.

O protesto estava sendo pacífico?

Nenhuma depredação. Nenhum ato de vandalismo. Não vi nada disso. Nenhum vídeo quebrado, nenhuma lixeira caída. Naquele momento, eu me lembro de ter presenciado um dos comandantes da polícia dando entrevista a jornalistas e a um pequeno grupo de manifestantes que eles não poderiam ultrapassar.  Só que não houve diálogo, apenas esse aviso isolado. Neste ponto da Consolação começaram os tumultos. Especificamente na Rua Caio Prado com a Consolação. Ali, os manifestantes avançaram, entre aspas, desrespeitando a ordem da polícia. Os policiais começaram a atacar. A partir daí, não houve distinção de manifestantes, pedestres e jornalistas.

O que aconteceu?

Atiravam em direção às pessoas, sem distinção. Era tiro para todo o lado. Começaram as balas de borracha e as bombas de efeito moral vindo em minha direção. Minha primeira atitude foi procurar um local para me proteger fisicamente. Em nenhum momento pensei em registrar aquilo. Naquela hora, pensei apenas em minha proteção física. Procurei abrigo atrás de um carro, muitas bombas de gás começaram a cair próximas ao veículo que eu estava.

Você levou material de proteção?

Eu estava protegido com uma máscara. Mas o gás estava muito forte, os olhos começaram a arder. Corri atrás de uma banca de jornal e esperei por alguns poucos minutos parecia que tinha se acalmado. Neste momento, eu consegui fazer uma imagem para saber quem estava atirando. Por proteção, fiquei com metade do corpo para fora. Neste instante, vários colegas saíram correndo. Novas bombas começaram a ser lançadas. Foi aí que senti o impacto no meu olho.  Voltei a me proteger atrás da banca. A dor foi muito forte, terrível. Nunca senti nada igual.

Quem o socorreu?

Mesmo sangrando, vi que não poderia ficar parado, se não, algo pior aconteceria. As pessoas continuavam correndo e bombas eram lançadas em minha direção. Estiquei meu braço e fui tateando as pessoas para tentar me agarrar em alguém. Nesse instante, surgiu um anjo da guarda para me ajudar. O professor Severino. Ele perguntou se eu estava ferido e começou a gritar “repórter ferido”, “repórter ferido”. As pessoas começaram a abrir caminho e ele me afastou da multidão. Foi desesperador. Não sabia se sairia vivo. Junto com ele, começamos a procurar um hospital mais próximo.  Ele parou no posto de gasolina. Comprou uma água, mas eu nem conseguia tomar porque mesmo a boca seca, eu me sentia afogado. O olho sangrava muito e o nariz também.

O que passou pela cabeça nessa hora?

O que eu mais pensava nessa hora era na minha família, na minha esposa, na minha mãe. Queria um hospital de qualquer jeito para salvar minha vida. Seguimos em direção ao Hospital Nove de Julho. O problema era que esse caminho era rota de fuga das pessoas que estavam fugindo dali.   Ele tentou pegar um táxi, mas o jeito era ir de a pé, não dava para tomar um táxi. O gás começou a fazer efeito e eu comecei a vomitar. O sangue não parava de cair. Foram quarenta minutos terríveis. Achei que não ia conseguir chegar, não desmaiei, mas pensei em desabar para que a dor diminuísse. O Severino me dava força e me animava.

Em algum momento você se arrependeu de estar ali, trabalhando e colocando a vida em risco?

Sim. Mas não a ponto de ser um pensamento pessimista. Eu sabia que estava em uma situação de risco. Principalmente quem cobre este tipo de assunto tem consciência e sabe do tipo de risco. Eu tenho amor ao que faço. Amo fotografar, amo poder fazer parte do noticiário. As pessoas têm a obrigação de saber o que está acontecendo por meio das imagens e das notícias. E eu me sinto na obrigação de levar a informação do que acontece na cidade.

Pensou em desistir da profissão em algum momento?

Mesmo estando impossibilitado de enxergar do olho esquerdo, eu não penso em desistir. Penso em continuar. Claro que ainda preciso de orientação médica, ainda preciso de uma confirmação de que poderei exercer integralmente a profissão.

Mas está confirmado que você não voltará a enxergar?

Não. Ainda não tem um diagnóstico. Existe uma possibilidade. Mas os médicos foram bem realistas. Será muito difícil recuperar 100%. Mas não é impossível. E é nisso que eu me apego nessa hora, em meus amigos, em minha família e na própria imprensa. Alguns órgãos e instituições estão me procurando e é nisso que eu me apego.

Que mensagem você passa neste momento para o governo, colegas, para quem seja?

Tanto a sociedade, quanto os órgãos de governo precisam entender o real papel da imprensa em cobrir manifestações. Não só manifestações, mas tudo relacionado ao nosso país. Os profissionais estão ali para trabalhar e levar informação. Não estão para condenar e nem acusar. Estamos lá apenas para apurar os fatos e levar informações para nossos veículos. Tanto o governo, quanto a sociedade precisam entender nosso papel.

Pessoalmente, eu passo um momento muito difícil. Sei que não voltarei a ver minha filha como antes, com os dois olhos. Essa é a maior derrota que eu tive com toda essa violência. Profissionalmente, não sei como vai ser daqui em diante, não sei se vou ter condições de trabalhar com fotojornalismo e condições físicas de estar na rua e se terei um emprego garantido. É um momento muito difícil.

Publicado pelo Portal Imprensa

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Atingido no olho por uma bala de borracha durante a quarta manifestação contra o aumento do preço das passagens de transporte público, realizada em São Paulo, o fotógrafo freelancer Sérgio Silva diz que, em seus três anos como profissional, nunca havia presenciado algo parecido com o que ocorreu na última quinta-feira (13/5).

Crédito:Reprodução

Fotógrafo tem menos de 5% de chance de voltar a enxergar com olho machucado

De acordo com o R7, Silva levou o tiro no momento em que a Polícia Militar entrou em confronto com manifestantes na região da rua da Consolação com a rua Maria Antônia, no centro da capital. Após ser ferido, um professor que estava no local ofereceu o primeiro socorro ao fotógrafo. 

“Ele foi um anjo da guarda, me tirou da confusão. Caminhamos da rua Caio Prado até o hospital Nove de Julho, ele me carregando nos braços, meu olho sangrando. Nenhum policial me socorreu, nenhuma ambulância me socorreu. Passei uns 40 minutos andando, sofrendo muito, era uma dor insuportável”, disse.
Silva conta que conseguiu perceber que a bala veio da direção da tropa policial que estava parada no cruzamento da rua da Consolação com a Maria Antônia, mas afirma que não se pode "culpar" a PM pela truculência. Em sua opinião, o que ocorreu foi uma ordem severa por parte do Estado.
“Quando começou o confronto com os manifestantes eu procurei me afastar porque eu estava no meio do fogo cruzado. Procurei abrigo atrás de uma banca de jornal e tinham muitas pessoas correndo nessa direção, fugindo das bombas e dos gases. Nesse momento eu quis saber de onde estavam vindo essas bombas e quando sai de trás da banca fui atingido e perdi a noção do que estava acontecendo. Veio da tropa, mas não sei dizer que policial atirou e acho que isso nem é o mais importantes. Nem a PM é o mais importante, porque eles estão ali seguindo ordens. O Estado é o maior responsável”, explicou.
O fotógrafo acrescenta que, ao perceber que estava machucado, ”foi só desespero. Pensei na minha família, minha filha, na minha profissão. Meu olho é meu instrumento de trabalho!”, ressaltou.
Internado desde a madrugada da última sexta-feira (14/6) no hospital H Olhos, em São Paulo, Silva teve alta na manhã do último sábado (15/6) e está recuperando-se em casa. Segundo o fotógrafo, o laudo dos médicos ainda não indica se ele irá recuperar a visão – ou parte dela.
“Meu olho está muito inchado, muito machucado por dentro. Preciso esperar desinchar, fazer nova avaliação. É um processo lento. Hoje, minha visão é nula com o olho esquerdo”, contou. E completou: “Minha vontade é continuar na minha profissão. É o que eu gosto, o que eu sei fazer, mas preciso saber se tenho condições físicas. Se eu tiver, mesmo com um olho só eu vou continuar”.
Silva ainda não sabe se irá mover alguma ação, mas foi orientado por advogados que o Estado pode ser responsabilizado por seu ferimento.

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