O Clube da Imprensa de Brasília, um dos mais simbólicos e tradicionais espaços de convivência dos e das jornalistas da capital federal em décadas anteriores, está fechado há 14 anos. A situação não foi uma escolha, mas o resultado de uma crise financeira que inviabilizou o funcionamento do Clube e consumiu os recursos do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) por anos.
Desde 2010, o Sindicato buscou sucessivas tentativas de revitalização, parcerias, arrendamentos e incorporação. Todas as propostas apresentadas nesse período foram avaliadas com rigor pela diretoria do Sindicato – mantenedor do Clube –, e submetidas continuamente à deliberação da categoria em assembleias.
O mais recente desdobramento é a proposta de compra definitiva do terreno onde funcionou o Clube, após a realização de uma avaliação sobre o valor de mercado do terreno. Depois de mais de uma década de tentativas de reestruturação do Clube, o Sindicato submete a oferta para discussão e deliberação da categoria, em assembleia agendada para 19 de setembro, às 14h, de forma PRESENCIAL na sede do SJPDF (cobertura do Ed. City Offices, SIG, Quadra 2, lotes 420/430/440). Todos os filiados em dia com o Sindicato podem participar e votar.
- Assembleia discute proposta de venda do terreno do Clube da Imprensa
Histórico
Fundado em 1965, o Clube da Imprensa fica em uma área nobre de Brasília, no Setor de Clubes Norte, às margens do Lago Paranoá. O terreno de 39 mil m2, localizado ao lado do Clube da Aeronáutica, próximo da Vila Planalto.
O imóvel foi adquirido da Terracap na década de 1960. O Clube da Imprensa e o terreno onde está localizado são hoje patrimônios do SJPDF, conforme estabelecido no estatuto da entidade.
Espaço de convivência dos jornalistas de Brasília por décadas, o Clube chegou a contar com um quadro de mais de 4 mil associados. Ao longo de seus 61 anos de existência, o espaço desempenhou importante papel na vida sindical, política e social dos jornalistas, mas também enfrentou dificuldades para alcançar a sustentabilidade financeira.
Na década de 1990, devido a falta de recursos, o Clube da Imprensa foi incorporado ao Sindicato e passou a ser custeado pelos repasses da mensalidade, garantindo a utilização do espaço de todos os sindicalizados. Até seu fechamento, em 2012, metade das mensalidades sindicais eram repassadas ao Clube, no entanto, os valores eram incapazes de cobrir as despesas de custeio e manutenção .
Em 2010, o grupo que assumiu a gestão do SJPDF encontrou uma dívida do Clube que se revelou superior a R$ 800 mil, além de um déficit mensal de R$ 20 mil para manter o espaço aberto. Corrigidos pela inflação, atualmente esses valores chegariam a uma dívida de R$ 2 milhões e um déficit mensal de 50 mil reais por mês.
O valor devido teve origem em contribuições patronais atrasadas de INSS, passivo herdado de gestões anteriores. A dívida também era composta por débitos com fornecedores (energia elétrica, água, materiais de construção e conservação), FGTS não recolhido de funcionários, IPTU, entre outros compromissos.
A manutenção do espaço passou a consumir cada vez mais recursos do Sindicato - comprometendo as energias e as atenções da entidade sindical com o seu propósito primordial de defesa dos trabalhadores.
Para se ter uma ideia, na épocao Clube tinha 12 funcionários, enquanto o Sindicato mantinha apenas dois trabalhadores. Os custos de manutenção do Clube,em 2011, eram de cerca de R$ 45 mil por mês, o equivalente hoje a R$ 100 mil reais. Como todos sabem, desde 2017, o SJPDF perdeu o imposto sindical e hoje sobrevive apenas das mensalidades e do patrimônio. Em 2026, o Sindicato arrecada R$ 80 mil para manutenção da sua estrutura enxuta, ainda com dois funcionários.
1ª parceria
Em 2011, a categoria aprovou em plebiscito — com 94% dos votos favoráveis — a realização de uma parceria com objetivo de revitalizar o local. Em agosto de 2012, o Clube foi fechado para o início da parceria. O arranjo aprovado envolvia um arrendamento e, em contrapartida, a construção de uma nova sede e um repasse mensal ao Clube.
Contudo, em novembro de 2013, o consórcio de empresários que celebrou o termo, comandado pelo empresário Luís Bizerra, da LB Valor, deixou de cumpri-lo e ainda tentou impor o aceite do contrato pela metade. Após duas assembleias realizadas em 2014, foi decidido ajuizar uma ação de rescisão do contrato. O litígio se arrastou por cinco anos, até que, em julho de 2018, a diretoria fechou um acordo judicial com a LB.
2ª parceria
A segunda tentativa de viabilizar o espaço veio com a empresa JR Produções, que assumiu o compromisso de reconstruir a sede do Clube em troca de remuneração mensal e participação nos lucros de empreendimentos na área.
O contrato foi aprovado pela categoria em assembleia em junho de 2016. O projeto previa um complexo de entretenimento com quadras esportivas, churrasqueiras, piscinas, salão de festas, espaço infantil e restaurante. Em dezembro daquele ano, porém, a empresa comunicou que seus investidores não aportariam recursos no projeto em 2017, devido à crise econômico-financeira do país. Além disso, a JR Produções não conseguiu cumprir as exigências legais para o registro do contrato no cartório de imóveis. Diante do impasse, a então diretoria do sindicato deu um prazo para a apresentação de novos investidores e do seguro que garantiria a construção. Sem resposta, o contrato foi cancelado.
3ª parceria
Em julho de 2018, após aprovação em assembleia da categoria, foi firmada uma nova parceria de arrendamento com a TWC Empreendimentos Imobiliários - uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) criada por empresários da cidade e voltada a operacionalizar o projeto.
A proposta apresentada previa a reconstrução do Clube da Imprensa, com área mínima de 10 mil m2, destinando 25% da área edificável total ao clube. O contrato previa remuneração ao SJPDF de percentual do faturamento e a responsabilidade do parceiro em arcar com todos os custos do Clube. O novo Clube da Imprensa contaria com piscinas, restaurantes, quadras, churrasqueiras, saunas, salão de jogos, parque infantil e uma nova sede.
Desde que formalizada a parceria, o Clube da Imprensa passou a receber, por meio do SJPDF, uma remuneração mensal decorrente do contrato (atualmente no valor de R$ 32 mil).
A pandemia de covid-19 impactou severamente as tratativas. Desde então, a TWC passou a apresentar diferentes projetos, envolvendo o arrendamento ou a incorporação por outras empresas ou investidores. Parte das iniciativas passou a prever outros tipos de empreendimentos e modelos de negócio no local, como um “apart hotel”, a partir de uma avaliação quanto à inviabilidade financeira de um clube tradicional.
Em algumas das propostas, o Clube da Imprensa participaria como sócio, utilizando o terreno como garantia. Também foram avaliadas alternativas de incorporação imobiliária
A categoria chegou a aprovar, em assembleia realizada em junho de 2024, uma mudança no estatuto do Sindicato, para possibilitar uma incorporação do terreno. O entendimento da Diretoria do SJPDF, referendado pela categoria, foi de que seria importante ter flexibilidade para novos modelos de negócios que pudessem surgir.
Os projetos para o terreno do Clube foram impactados, entre outros fatores, pela necessidade de alteração da destinação da área (que é destinada só à operação de clubes). A mudança não foi aprovada no processo de votação na Câmara Legislativa do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB), em 2025. Outras possibilidades apresentadas traziam riscos a longo prazo e uma possível elitização do espaço.
O que fazer?
Após 14 anos de negociações, parcerias frustradas, uma ação judicial de cinco anos e uma dívida que consumiu as reservas do SJPDF, a categoria volta a ser convocada para decidir o destino do Clube da Imprensa.
A mais recente proposta sobre a mesa, ofertada pela TWC, envolve a compra da área do Clube após uma avaliação contratada estabelecer o valor de mercado do terreno. É isso que estará em debate na assembleia marcada para 19 de setembro: uma decisão final sobre o futuro do imóvel que abrigou décadas atrás o Clube da Imprensa.
Os estudos de viabilidade econômica realizados ao longo desse período indicaram que a manutenção do modelo tradicional de clube pode representar novos riscos financeiros para a categoria. Diante desse cenário, a direção avalia que é necessário buscar uma destinação definitiva para a área, priorizando investimentos capazes de gerar rentabilidade, preservar e valorizar o patrimônio e produzir benefícios permanentes para os jornalistas do Distrito Federal.