O assédio sexual tomou espaço considerável dentro da pauta da mídia no último mês. Primeiro, por causa do caso emblemático da menina de 16 anos que sofreu um estupro coletivo e acabou sendo alvo da opinião pública porque teve sua identidade revelada pela mídia. Depois, devido ao episódio da jornalista do Portal IG que foi assediada pelo cantor Biel em entrevista coletiva. A profissional foi recentemente demitida do veículo. Mas até quando a sociedade irá culpabilizar ou penalizará a mulher pelos casos de assédio que ela sofre? Por que isso ocorre?
Para tentar responder a essas e outras questões sobre o machismo como a forma de abordagem do estupro na mídia e os assédios moral e sexual dentro das redações, o Sindicato dos Jornalistas do DF entrevistou a jornalista Nana Queiroz, que ficou conhecida depois de criar a campanha "Eu Não Mereço Ser Estuprada". Atualmente Nana é diretora executiva da Revista AzMina, colunista do Brasil Post e autora do livro “Presos que Menstruam” (confira mais aqui).
Na entrevista, Nana afirma que existe uma luta constante para se desconstruir o machismo, que está espalhado na sociedade e, portanto, disseminado também no jornalismo. Ela revela que sofreu assédio sexual e moral no ambiente de trabalho por chefes diferentes e em diferentes circunstâncias. Critica o tratamento dado pela mídia à mulher e manda um recado para os simpatizantes de Bolsonaro que invadiram seu facebook com mensagens agressivas e preconceituosas. Vale conferir!
1 - O Sindicato realizou uma pesquisa pela internet sobre desigualdade de gênero nas redações/assessorias e os resultados não foram nada favoráveis. Sobre assédio moral, 77,9% das mulheres que participaram disseram que já sofreram assédio por parte de chefe ou colega da redação (veja os resultados aqui). A jornalista do Portal IG também foi assediada pelo cantor Biel durante coletiva de imprensa. Você já foi vítima, já presenciou ou tem conhecimento de algum caso de machismo ou assédio nas redações/assessorias?
O ambiente jornalístico é extremamente machista e estressante. Nesse local foi construída uma cultura de diminuição do outro em que o machismo ganha ainda mais poder. Eu já fui vítima de assédios sexual e moral no ambiente de trabalho por chefes diferente e em diferentes circunstâncias. Eu tive um chefe que uma vez me escreveu por e-mail profissional, quando eu era estagiária, que ele queria brincar de chefe e estagiária nas horas íntimas comigo. Eu não denunciei porque eu achei que não ia dar em nada e que só eu iria sair castigada dessa situação. E eu também já tive um chefe que na festa da empresa disse que eu era a surpresa do ano, pois ele tinha me contratado porque eu era "gostosinha" e eu provei que tinha um cérebro. Então eu sei muito bem como é esse desafio.
Mulheres que se encaixam no padrão de beleza majoritário sofrem ainda mais porque são questionadas da sua competência. Porque existe essa ideia de que uma mulher bonita só faz sucesso se ela dormir com alguém. Foi o que ocorreu com a Débora Bergamasco, que deu um furo jornalístico sobre a delação do Delcídio e que todo mundo falou que ela tinha dormido com alguém para conseguir aquela reportagem. Então esse número de 80% não me espanta nem um pouco. Outra coisa são as fontes que se sentem no direito de seduzir as repórteres e cometer assédio sexual em troca de informações/furos de reportagens. A revista Azmina já recebeu muitos depoimentos desse tipo, inclusive da Adriana Caetano, que hoje está no governo. Eu acho que em ambiente em que o empregador não valoriza os seus empregados como é o caso do mundo jornalístico em que a profissão está cada dia mais sucateada, o jornalista cada vez mais sobrecarregado e estressado você favorece um ambiente de assédios moral e sexual. É muito mais possível de acontecer.
2. Qual é a sua avaliação sobre como foi a abordagem da mídia do caso da menina de 16 anos que sofreu o estupro coletivo no Rio de Janeiro?
É bem difícil fazer um balanço nesse caso porque eu sinto que esse caso foi tanto coberto pela imprensa como exaustivamente coberto pela própria população em blogs e em redes sociais. O que me incomodou muito foi a divulgação excessiva da imagem da garota proporcionada em parte pela Veja que divulgou o recado da menina. Eu acredito que é papel do jornalista fazer um balanço do impacto que vai ter divulgar determinado tipo de coisa. Ela é uma menina de 16 anos que não tem ideia de qual é o peso da opinião pública. Caberia ao jornalista da Veja, que é uma pessoa que supostamente estudou isso a vida inteira, saber no lugar da menina que não tem nenhuma noção sobre isso que ela poderia ser massacrada nas redes sociais ao ser identificada. O que a Veja fez? A Veja publicou na íntegra o recado da menina. Então qualquer pessoa que desse Copy paste no google conseguiria encontrar qual era o perfil da garota e identificar a identidade dela. Por que isso foi muito sério? Porque a guria acabou sendo escrachada e não só pela mídia mas também pela população, que começou a julgar a personalidade dela e assim isso alimentou uma série de argumentos para culpabilizar a vítima. Por outro lado, eu acho que essa cobertura em massa das pessoas não jornalistas do caso deixou muito mais claro pra gente o quanto é necessário, na era da internet, que as pessoas entendam o papel do jornalista como mediador da informação. Quando as pessoas se sentem responsáveis por fazer o trabalho do jornalista acontece esse tipo de coisa. As pessoas não tiveram reflexões, leituras e estudos para poder pensar qual é o papel do jornalista e da informação e nem sabem quais são os limites de informar o público e respeitar a privacidade. Tudo isso mostrou que essa menina sofreu e teve sua vida devastada. Graças a Deus conseguiu se comprovar que de fato ela foi estuprada mesmo, mas ela quase perdeu o processo sendo estuprada de maneira absurda porque as pessoas se sentiram no direito de fazer o trabalho de jornalista e de justiceiros julgando-a pelo que ela faz.
3. E sobre as abordagens gerais da mídia sobre violência contra a mulher, principalmente sobre o estupro e o feminicídio, como você definiria? Acredita que a forma dos jornalistas tratarem o assunto tem relação com a cultura do estupro disseminada na sociedade e tão discutida nos últimos dias, inclusive pelos meios de comunicação?
Eu acho que a mídia é formada por membros da sociedade. E a sociedade por membros da mídia. São duas coisas que se retroalimentam. Naturalmente nós todos enquanto jornalistas, e isso incluí nós feministas que eventualmente descobrimos os nossos machismos internos, enfrentamos uma luta constantes para desconstruir o machismo. Quando nós fazemos críticas à mídia pela maneira como alimenta a cultura do estupro nós não queremos tornar os jornalistas uns monstros, mas mostrar a eles que seus erros são humanos de quem está inserido nessa sociedade e que são perfeitamente passíveis de transformação. Quando você me fala sobre a cobertura da imprensa que alimenta a cultura do estupro eu acho que ela não é necessariamente a cobertura a respeito de violência contra a mulher ou de crimes de estupro. É uma cobertura generalizada em que a mulher é colocada como objeto sexual. Quando você tem na capa do Uol a musa do time de futebol, por exemplo, ao invés da atleta da semana, você está alimentando na população a ideia de que mulher só serve pra isso. Só serve para ser objeto sexual, só vale se ela for bonita, só vale se ela for sexy. Quando você coloca a mulher na posição de objeto e não de sujeito sexual você alimenta a cultura do estupro porque você alimenta a ideia de que ela é um objeto a ser possuído, a ser perseguido, a ser dominado e não que ela é uma pessoa a ser conquistada, a ser convencida. E é assim principalmente que a mídia alimenta a cultura do estupro. Outra forma que a mídia tem de alimentar a cultura do estupro é também quando você tem os programas de auditório em que mulheres aparecem como enfeites seminuas no fundo. Mais uma vez elas são objeto e não sujeito. Quando você coloca poucas jornalistas, poucas colunistas, poucas diretoras de redação para falar você está alimentando o quê? Aquela velha ideia de que só homens têm coisas interessantes a serem ditas. E mais uma vez você diminui o papel da mulher como sujeito. Então se você perceber que a cultura do estupro nada mais é do que a face sexual da cultura do machismo você entende que a cultura do machismo é a cultura que coloca a mulher como objeto ao invés de sujeito. E quando você parte para a questão sexual isso é a cultura do estupro. Se a mulher é apenas um objeto ela não é um sujeito profissional, um sujeito humano, um sujeito de fala, um sujeito que pode buscar sexo por conta própria. Se ela não é um sujeito, logo ela é um objeto e logo é permitido forçar ela ao sexo porque ela é só um objeto. Ela é de dignidade menor do que a masculina. E assim você justifica que a culpa na verdade é da mulher, pois o estuprador não tinha como controlar os seus instintos porque a culpa é da mulher que usou uma saia. Porque ela é objeto de desejo.
4. Para você qual seria a receita para mudar rapidamente a abordagem da mídia sobre o tema? Azmina já pensou em alguma ação direcionada especificamente para jornalistas?
A revista Azmina tem um projeto de training para jornalismo não machista que a gente ainda não conseguiu tirar do papel. A ideia é pegar jornalistas jovens e ensinar a eles como fazer jornalismo de uma maneira feminista. Pensamos em tratar desde a linguagem até como são as abordagens da imprensa. Eu acho que todas as grandes redações deviam fazer cursos de especialização nisso e fazer debates com seus funcionários sobre o tema. Deveria ter workshops dentro das redações sobre como fazer uma cobertura não machista. É urgente! As mulheres estão de olho e o veículo que faz machismo só passa vergonha. Passou na hora dos jornais investirem nesse tipo de treinamento.
5. Você tem tido muitos ataques por simpatizantes de Bolsonaro. Qual a sua postura em relação a isso? Você pretende investigar e processar essas pessoas? Como irá agir?
Eu já conversei com a direção do Facebook e eles colocaram um tipo de avaliação especial no meu perfil para que ataques de simpatizantes do Bolsonaro não me tire mais do ar. E tudo que eu tenho feito agora é dado um grande “ignorão” porque eu acho que essas pessoas não merecem atenção. O recado que eu daria para elas é que do outro lado da tela tem um ser humano que sou eu, eu sinto, eu sofro, eu sou filha de alguém, irmã de alguém, sou esposa de alguém, amiga de alguém. Tem gente que me ama. Eu sou amável. Eu sou de carne e osso e você está me fazendo mal. Será que é isso que você quer? Acho que é isso que eu diria.
Confira aqui o manual lançado pela Think Olga
Acompanhe a campanha #jornalistascontraoassedio
Fotos: Reprodução da Internet