A ampla comoção originada pelas ofensas racistas desferidas à apresentadora da TV Globo, Maria Júlia Coutinho, serve de alerta para uma preocupante escalada da visibilidade do racismo, nesse caso tendo por alvo mulheres cuja presença midiática, ou seja, a evidência e popularidade, despertam a fúria de pessoas racistas.
Diante desses fatos, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de Brasília (Cojira-DF) vem a público prestar solidariedade à Maria Júlia e refletir que o episódio não é isolado. Por esse mesmo motivo, preocupa e deve ser interpretado de forma mais ampla.
Neste ano, uma outra jornalista radicada em Brasília, Cristiane Damacena, foi atacada na internet após postar uma foto sua no Facebook. Foi o que bastou para ser hostilizada. A jornalista Raíssa Gomes, que também atua em Brasília, teve sua foto grávida criminosamente postada em um site de compras e vendas, como se estivesse vendendo o filho, e foi igualmente alvo de comentários racistas.
No ano passado, a apresentadora do SBT, Joyce Ribeiro, registrou boletim de ocorrência por injúria racial, depois de um usuário do Facebook ter publicado texto ofensivo contra ela. Também em 2014, houve um episódio com a ex-apresentadora do Fantástico, Glória Maria. O motivo foi a imagem registrada pelo colunista Bruno Astuto em sua conta no Instagram com a apresentadora em meio a um grupo de celebridades.
É necessário, como há anos defendem as comissões de Jornalistas pela Igualdade Racial, apostar em conteúdos de combate ao racismo nas escolas de comunicação social. É também importante combater a impunidade quando o assunto diz respeito a delitos de racismo e injúria racial, inclusive nas redes sociais.
Faz-se ainda mais urgente que os meios de comunicação tomem medidas efetivas de promoção da igualdade racial em seus processos de seleção interna. Em negociações de acordo coletivo, as emissoras de televisão têm se negado a realizar censos étnicos-raciais ou mesmo a fazer campanhas de combate ao racismo. Ao mesmo tempo em que, neste momento, se ressentem de ataques racistas a suas colaboradoras, algumas emissoras seguem veiculando em programas humorísticos representações preconceituosas em relação às mulheres negras. São essas representações que sustentam e alimentam o racismo reproduzido nas redes sociais.
É imperativo não se calar, não minimizar, individualizar ou banalizar fatos como o vivenciado por Maria Júlia. Esperamos um compromisso efetivo da sociedade como um todo contra o racismo, cuja face mais visível neste momento atinge as jornalistas negras, mas é uma realidade na vida da população negra brasileira.
Cojira-DF
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