A jornalista Najla Passos, do Portal Carta Maior, é mais uma palestrantes que estará no Congresso Distrital dos Jornalistas. Ela participará da mesa “Cobertura Jornalística: Copa, Protestos e Eleições”, que ocorrerá a partir das 9h do próximo sábado, 15/3. O evento, promovido pelo Sindicato dos Jornalistas do DF, será iniciado nessa sexta (14). Saiba mais sobre o Congresso aqui
Em entrevista ao site do SJPDF, Najla critica a atuação repressiva da polícia e a falta de punição aos policiais. Outro tema tratado por Passos é a exigência da proteção por parte dos jornalistas que deve ocorrer em relação ao governo e às empresas de comunicação.
Najla Passos é jornalista formada pela UFJF e mestre em estudos culturais pela UFMT. Em quase 19 anos de profissão, já atuou em rádios, jornais, TVs e assessorias de imprensa de MG, MT e DF. Atualmente, é repórter de política do Portal Carta Maior, responsável pela cobertura dos três poderes, em Brasília. Confira a entrevista completa!
1 - Como você tem percebido a questão da violência contra os jornalistas durante coberturas de protestos?
R: A violência contra os jornalistas que cobrem as manifestações, tanto por parte da Polícia quanto por parte dos manifestantes, deve ser repudiada sempre e de forma veemente. Mas para se encontrar uma solução para o problema, é preciso compreendê-la como um fenômeno social não fortuito, que em grande medida é sintoma da falência do modelo de duas instituições que, a despeito dessas três décadas de redemocratização, permanecem tão autoritárias quanto na época da ditadura: a Polícia e a Mídia.
Hoje, 30 anos após o fim da ditadura, os estados ainda mantêm um modelo de Polícia Militar treinada para tratar como “inimigo” o diferente, a minoria, o fora de seu controle – onde se incluem os jornalistas. É inadmissível que a Polícia, que deveria proteger o exercício da profissão do jornalista, seja a campeã em agressões contra a categoria, como ficou claro desde o início das manifestações de junho. E o pior: o policial que agride sequer é punido. Mas a questão é mais grave: a Polícia não comete arbítrio só contra jornalistas, mas contra vários outros grupos sociais. Por isso, é imperativo que se discuta já a sua desmilitarização e que os jornalistas, enquanto categoria, tenham posição expressa e pública a respeito disso. Não existe razão para o Brasil ser o único país de algum relevo a manter uma Polícia Militar em uma democracia. Uma Polícia Militar forjada no autoritarismo, que desconhece quaisquer mecanismos de punição.
Ao mesmo tempo, temos um modelo de mídia que está entre um dos mais concentrados do mundo, considerando, inclusive, as ditaduras reais. E, tal como a Polícia, não sabe tratar o diferente, a minoria, o fora de controle. Os manifestantes brasileiros são permanentemente tratados como “vândalos”, “baderneiros” e até “terroristas”, enquanto os neonazistas que tomaram a Ucrânia ou os neofascistas que tentam dar o golpe na Venezuela são tratados como “ativistas”. E isso não é conversa de “esquerdistas”. Está tudo nas manchetes dos jornais, todos os dias, é só conferir.
Precisamos reconhecer que a insatisfação da população com o modelo de comunicação que temos hoje no Brasil é real e não pode mais ser mascarada se quisermos pensar uma solução para o problema da violência nas manifestações. Como evitar que militantes, ativistas, pobres, populações da periferia se rebelem contra uma mídia que não os representa, que criminaliza os movimentos sociais, que trata sem-terra como terroristas, que adota até hoje um discurso machista e homofóbico, que se refere aos jovens pobres e pretos de periferia como bandidos, que só considera as classes emergentes como audiência de produtos culturais duvidosos?
É claro que não é justo e nem correto que nós, jornalistas, paguemos essa conta, que é muito mais dos donos dos meios, do poder econômico/político que negocia concessões públicas em balcões de negócio. Mas também não podemos deixar de reconhecer que temos, sim, uma parcela de culpa na insatisfação da população contra o modelo de mídia que aí está. Desde o fim da ditadura, nós, jornalistas, não temos conseguido dialogar com os movimentos sociais legítimos que estão aí. Não o tratamos como iguais. E isso causa o estranhamento, o preconceito, a repulsa. Não está mais do que na hora, por exemplo, de nos engajarmos de fato na luta pela democratização da mídia, que tantos benefícios trará não só para esses grupos descontentes como para nossa própria categoria?
2. Precisou um jornalista morrer e o fato ser amplamente divulgado para o governo se posicionar. Como você vê essa questão?
R: Discordo da premissa. Não somente o governo, como vários outros grupos sociais, vêm se posicionando sobre a questão desde o início das manifestações de junho, o que não quer dizer que essas posições sejam as adequadas ou se transformem em soluções para o problema. O governo, mais especificamente, criou um grupo pra discutir o assunto, comandado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência. Jornais publicaram editoriais contra isso. Entidades da categoria emitiram notas. Parlamentares, inclusive de esquerda, propuseram projetos de lei dignos da extrema-direita fascistas que transformam qualquer manifestação em crime de terrorismo, o que é temerário. Há vários atores sociais se movimentando em relação ao tema, inclusive internacionais. Nada de concreto foi feito, é fato, mas porque ainda não existe consenso social para tal. As últimas pesquisas de opinião pública mostram um descontentamento crescente com o caráter das manifestações e é possível que, em breve, já exista uma maioria com posição definida sobre o assunto, mas é difícil supor que seja uma posição progressista ou mesmo razoável. Portanto, o mais lúcido, por ora, é dar foco à discussão: de que adiantará uma lei antiterrorismo se continuarmos com esse mesmo modelo falido de Polícia? De que adiantará prender todo e qualquer manifestante se o modelo de imprensa concentrada permanecerá gerando mais violência, simbólica e real?
3. A liberdade de expressão e da imprensa têm sido cerceada e os jornalistas, sofrido com a repressão e, muitas vezes, com preconceito. Esse desacato à democracia virou rotina na profissão. Como esse cenário pode ser melhorado?
R: A morte de Santiago Andrade e as agressões sofridas por vários jornalistas nas manifestações são todas elas lamentáveis e devem ser punidas com rigor, tenham sido cometidas pelo Estado ou por manifestantes. Mas classificá-las como ataque à liberdade de expressão ou de imprensa é forçar uma barra que pode servir a propósitos duvidosos. Os manifestantes que mataram Santiago não o fizeram para “calar a imprensa”, como levam a crer as imagens disponíveis e as investigações em curso. Inclusive, neste caso específico, os responsáveis foram identificados em tempo recorde, estão presos, devem ser rigorosamente punidos, o que já é um grande avanço e configura situação bem diferente do que ocorreu com as agressões cometidas por policiais.
Os jornalistas precisam exigir proteção tanto das autoridades públicas quanto das empresas para trabalharem em manifestações. Mas providências reais que envolvam total mudança de postura. Não adianta a Polícia oferecer cursinho babaca de defesa pessoal em manifestações e o jornalista ir lá fazer achando que isso agrega alguma coisa. A Polícia é a agressora. Não é dela que virá a solução. É a categoria que precisa discutir quais medidas exigir, quais posicionamentos tomar, quais limites tolerar.
Em relação ao preconceito, isso só vai mudar quando o jornalista souber se posicionar melhor frente aos movimentos sociais que estão nas ruas. É claro que ninguém vai apoiar quebra-quebra e violência, não é isso, mas há muitas demandas reais nas ruas, levantadas por movimentos sérios, como a da própria democratização da mídia, que exigem posicionamento expresso dos jornalistas. Só assim os manifestantes irão deixar de reconhecê-los como inimigo. O jornalista, enquanto categoria, precisa adotar uma postura de classe, saber de que lado está no eterno conflito social e deixar isso claro para o conjunto da população.
4. Neste ano, temos o desafio da Copa do Mundo e das Eleições. Como você acha que os jornalistas têm que se preparar para a Cobertura da Copa? Como, no meio de toda essa violência, posicionar-se e cobrar medidas de segurança do Estado e das empresas de comunicação?
R: A organização via sindicato é sempre a melhor opção para se cobrar as urgentes e necessárias medidas de segurança do Estado e das empresas. Mas é preciso também uma preparação intelectual, que pode, inclusive, ser mediada pelo sindicato, por meio de cursos de formação e a criação de espaços para debates. É preciso assumir a difícil e árdua tarefa de tentar entender as ruas, entender os atores que se movem na conjuntura, principalmente para não comprar a pauta ou a bandeira errada. Insisto, combater a violência contra jornalistas nas manifestações pressupõe, antes de tudo, acabar com este modelo de Polícia que temos hoje e democratizar os meios de comunicação.