O prédio onde funcionou o jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, MG, por mais de 30 anos foi ocupado na manhã de hoje, 1/6, por trabalhadores do setor de comunicação, entre eles jornalistas e gráficos. O “predinho”, como ficou conhecido na delação de Joesley Bastista, um dos donos da JBS, teria sido utilizado como ponte para pagamento de propina ao senador afastado Aécio Neves (veja mais aqui). Os trabalhadores denunciaram o calote que levaram há mais de um ano, quando foram demitidos do veículo sem receber seus direitos trabalhistas.
O presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais Kerison Lopes afirma que mais de 150 trabalhadores estão nesta situação, sendo que 38 deles são jornalistas, alguns deles trabalharam no veículo por quase 30 anos. Além da falta de pagamento das verbas rescisórias, os jornalistas também não receberam o último salário. “Desde o ano passado, os profissionais estão lutando na justiça para receber os seus direitos. E nós pedimos a penhora desse prédio para que a venda dele fosse revertida no pagamento dos passivos trabalhistas, mas ao invés disso esse prédio foi vendido para pagar propina. Caixa 2 do senhor Aécio Neves”, afirma Kerison.
O movimento liderado elos sindicatos dos Jornalistas, dos Gráficos e dos Trabalhadores em Administração em Jornais e Revistas de Minas Gerais, com o apoio de outros sindicatos, de movimentos sociais, de jovens e de trabalhadores, que prestam solidariedade aos demitidos e denunciam tanto a situação de corrupção comandada por Aécio Neves, quanto à situação da mídia no Brasil, que muitas vezes está nas mãos de políticos ou de empresas poderosas, que priorizam os interesses capitalistas.
Ao longo do dia foram realizadas atividades culturais, debates sobre a importância da democratização da mídia, a situação dos trabalhadores e a necessidade de eleições diretas para que a democracia seja minimamente restabelecida no Brasil.
As demissões
Os trabalhadores foram pegos de surpresa com a demissão em massa no dia 29 de fevereiro de 2016. Além das verbas rescisórias, os jornalistas não receberam o último salário. De lá para cá, eles lutam por seus direitos na justiça. Adriana Carvalho Diniz, jornalista que atuou no veículo durante 24 anos, e Ricardo Bastos, repórter fotográfico que trabalhou no Hoje em Dia por quatro anos, estavam entre os profissionais que participaram da ocupação do “predinho” hoje.
“Fomos demitidos através de uma verdadeira tortura psicológica. Todos os dispensados foram desrespeitados e sofreram abuso moral. Fizemos uma peregrinação junto aos juízes para cobrar nossos direitos. No entanto, os envolvidos estão sem receber nenhum tostão desde o dia da demissão”, enfatizou Bastos.
“Todos nós fomos surpreendidos. No meu caso, já tinha ido embora. Tentaram me localizar em casa, assim como outros colegas. Tudo para fugir da estabilidade que entrou em vigor no dia 1º em função das negociações em nossa data-base. Voltei no dia 1º e fui obrigada a assinar o desligamento com data retroativa, sob forte pressão”, criticou Adriana.
Corrupção
Depois de mais de um ano de idas e vindas na justiça, as novas informações de que a venda do prédio faria parte de um esquema de corrupção não foram recebidas com tanta surpresa pelos trabalhadores. Segundo Ricardo, “algumas pessoas que trabalhavam no ‘predinho’ chegaram a ver os figurões do PSDB entrando e saindo do prédio com o dono do jornal Flavio Jaques Carneiro”.
O jornalista também explica que a influência de Aécio no jornal era grande. “Durante a corrida presidencial, por exemplo, várias editorias foram compradas para trabalhar a favor do candidato”, relata. Ele também questiona o fato de Flavio Jaques Carneiro que é amigo íntimo de Aécio Neves e Andréa Neves ter vendido o jornal por um valor irrisório para Ruy Muniz, prefeito de Montes Claros, que também está envolvido com corrupção.
Direitos
Os jornalistas esperam que a ocupação de hoje surta efeito positivo. Mais admitem que é muito traumático ver que o caso de desrespeito contra eles tem relação com a corrupção. “É difícil ver que somos uma gotinha nesse mar de corrupção. O velho ditado: a corda arrebenta do lado mais fraco. No caso? Em termos de poder econômico porque estamos mostrando que somos fortes e não vamos desistir de ver nossos direitos serem cumpridos”, declara Adriana.
Para Ricardo, depois da ocupação visibilidade de hoje as coisas podem começar a andar, visto que ele acredita que a influência dos figurões envolvidos no caso também reflete, de certa forma, no andamento da ação na justiça.