Com a preocupação de discutir os desafios da implementação das novas diretrizes curriculares e o possível impacto que as novas regras poderão causar na formação de futuros profissionais, coordenadores de cursos de comunicação do DF, jornalistas e estudantes debateram o assunto nesta sexta-feira, 22/5, durante o “Seminário Desafios da Formação em Jornalismo no DF”. Fruto da parceria entre o Sindicato dos Jornalistas do DF e essas instituições de ensino, o evento tratou desde a importância das teorias clássicas para a formação até a mudança de ferramentas tecnológicas utilizadas dentro da área.
Os cursos de comunicação de todo o país têm até 27 de setembro para implementar as novas regras nas instituições. Elaborada em 2009 por uma comissão de especialistas indicada pelo Ministério da Educação (MEC), a proposta foi formulada a partir de uma consulta pública disponibilizada na internet e de três audiências públicas.
Entre as mudanças propostas no documento estão: a saída do jornalismo do campo da comunicação social, tornando-o autônomo; o aumento da carga horária para o mínimo de 3.200 horas, sendo 200 para o estágio (obrigatório e supervisionado) e o restante dividido igualmente entre teoria e prática, e a regulamentação e proibição do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) coletivo.
Falta de democratização
Uma das críticas levantadas durante o debate do seminário foi justamente a falta de democratização tanto na escolha dos membros da comissão que ficou responsável pelo processo quanto oportunidade de debate público, visto que somente três estados tiveram a oportunidade de discutir as novas propostas.
Segundo o professor e pesquisador da Universidade Católica de Brasília, Luiz Carlos Iasbeck, a implantação das novas diretrizes deve ser vista como um fator complexo. “As regras não modificam somente a grade, mas também todo o Projeto Político Pedagógico dos cursos”, afirmou.
Iasbeck chamou a atenção para o fato de que as mudanças propostas pelas novas diretrizes fazem parte de uma transição que parece ser regressiva. “As diretrizes tendem a especificar e voltar ao sonho romântico do jornalismo. Existe uma tendência conservadora de manter o jornalismo naquele escopo que tinha antes, direcionado mais para a prática. Isso é um temor quando pensamos no futuro do jornalismo. Temos o desafio de implementar uma grade que não tem relação com as tendências de mercado que estão ocorrendo hoje”, criticou.
A estudante Emily Almeida, ex-coordenadora geral da Executiva Nacional de Comunicação (ENECOS), enfatizou que a implementação das diretrizes tem relação não somente com os profissionais da área, mas também com toda a população. “A universidade é um espaço par se pensar. Um curso de bacharel tem um proposito mais extenso do que um curso técnico. A discussão do currículo não deve está dissociada da discussão da qualidade da formação”, ressaltou.
Teoria versus prática
Na época que foram aprovadas, as diretrizes receberam diversas críticas por suas regras enfatizarem muito a parte prática. Assim como Iasbeck e Emily, Leonardo Meireles, editor adjunto da editoria Cidades do Correio Braziliense e Sionei Ricardo Leão, jornalista e integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial-DF (Cojira-DF), colocaram suas preocupações com essa nova visão que será implantada dentro dos cursos. “Tenho experiência de fechamento e fazemos isso todos os dias, mas as teorias apreendidas não podem ser dissociadas da prática habitual”, ressaltou Meireles.
Em seu discurso, Sionei também frisou que o jornalista deve conhecer muito sobre outras áreas como é o caso da história e do direito. “É importante dizer que a técnica jornalística abre portas para os profissionais. Já escutei muitos historiadores dizerem que estudam bastante, mas que os livros que vendem são os escritos por jornalistas”, comentou.
A questão da representatividade dos negros/as na mídia, foi outro tema abordado por Sionei. Ele fez um histórico no qual demonstrou que os negros participaram dos primeiros momentos do jornalismo, quando citou desde João do Rio até Tim Lopes. O jornalista disse que uma das barreiras profissionais a serem quebradas por negros/as é a falta de representação. “Apesar dos negros estarem presentes em vários momentos históricos do jornalismo demonstrando ter espaço no setor, o problema é que o espaço, na maioria das vezes, é nos bastidores. Somos jornalistas negros ou somos negros que estamos no jornalismo?”, afirmou.
A segunda mesa do evento ficou por conta de discutir como está sendo feita a implementação das novas diretrizes nos centros de ensino. A mesa contou com a participação de Joadir Antônio Foresti, coordenador do curso de comunicação da UCB; Daniela Goulart, coordenadora do curso de comunicação do IESB; e Henrique Moreira, coordenador do curso de comunicação do Uniceub.Isabel Clavelin, assessora de comunicação da Onu Mulheres Brasil e professora da Universidade Católica de Brasília, mediou a discussão.